A história da cerveja está ligada à história do trabalho. Muito antes de ser um símbolo de descanso, a bebida foi usada como salário, nutrição e ferramenta de mobilização social. Para celebrar o 1º de maio, o Guia da Cerveja separou cinco fatos históricos que mostram essa relação.
1 – Salário em estado líquido
A relação entre cerveja e trabalhador remonta à Antiguidade. Muitas civilizações antigas usavam a cerveja como parte do pagamento de mão de obra. Uma tabuleta de argila de 3 mil a.C., do acervo do Museu Britânico, registra as rações de cerveja distribuídas aos operários na cidade de Uruk, na Mesopotâmia. Pagar salário com cerveja também foi comum no Egito Antigo, com inscrições que registram a prática. Há relatos de que até as pirâmides foram construídas com apoio da bebida, que garantia hidratação e nutrição.
2 – Saison: o combustível das fazendas
Antes de a cerveja chegar às cidades ou ser produzida em indústrias, era feita em fazendas de forma quase caseira. Um estilo que conserva essa marca é a Saison. No interior da Bélgica, fazendeiros produziam a Saison durante o outono e inverno para vender aos trabalhadores temporários que chegavam para a plantação no verão e colheita na primavera. Segundo o mestre cervejeiro Phil Markowski, em artigo no Guia Oxford da Cerveja, a Saison era uma cerveja de provisão, que atendia a três objetivos: refrescar os trabalhadores no verão, garantir ocupação para a mão de obra fixa no inverno e gerar bagaço para alimentar o gado. As Saisons modernas preservam o caráter rústico, sendo leves, secas e refrescantes, com notas frutadas de laranja e um toque condimentado que remete à pimenta-do-reino.
3 – Grisette: a aliada dos mineiros
A cerveja acompanhou o trabalhador também até as minas de carvão. O Sul da Bélgica foi uma das primeiras regiões a se industrializar na Europa Continental entre o final do século 18 e o começo do 19. A Grisette é uma variação da Saison, apreciada especialmente por mineradores. É uma cerveja leve e refrescante, pensada para ajudar a recuperar energias após um dia exaustivo de trabalho braçal. O nome significa “a pequena cinzenta”, com várias explicações, como referência à aparência turva ou à condição dos trabalhadores cobertos de cinzas.
4 – Porter: a “rockstar” da Revolução Industrial
A Porter tem seu nome dado aos estivadores do porto de Londres no século 18, usado por extensão para todos os trabalhadores braçais da região. A cerveja se desenvolveu e se tornou símbolo da Revolução Industrial, servindo de sustento para a nova massa de operários nas cidades. Uma das histórias sobre sua criação é que teria surgido como uma mistura de cervejas nos pubs, sendo consumida principalmente por trabalhadores braçais. A Porter foi uma das primeiras cervejas mais escuras do mundo, antes mesmo da invenção dos maltes torrados modernos, e uma das primeiras a receber maiores doses de lúpulo na Inglaterra.
5 – Bitters, German Lagers e o Movimento Trabalhista
As primeiras manifestações do Movimento Trabalhista aconteceram na Inglaterra durante o século 19, reivindicando melhores condições de trabalho e menores jornadas, que podiam passar de 15 horas diárias. Reuniões de trabalhadores eram ilegais até 1824, e muitos encontros ocorriam às escondidas nos pubs. Além da Porter e da Stout, havia as Bitters, cervejas mais claras e amargas. Esse tipo de cerveja acompanhou o crescimento do movimento trabalhista europeu até as primeiras décadas do século 20. Nos Estados Unidos, em 1º de maio de 1886, em Chicago, mais de 300 mil trabalhadores fizeram greve exigindo 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de vida. Três dias depois, ocorreu o massacre de Haymarket. Em 1889, em Paris, a data de 1º de maio foi instituída como símbolo da luta trabalhista. A cerveja que acompanhava os trabalhadores da época era a German Pils, trazida por imigrantes germânicos.
O Brasil e o Dia do Trabalho
Trabalhadores começaram a comemorar a data no Brasil no início do século 20. O feriado foi instituído por decreto do presidente Artur Bernardes em 1924. Em 1º de maio de 1943, Getúlio Vargas assinou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituindo salário mínimo e férias, alterando o título para Dia do Trabalho.
