07/08/2026
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Bancos veem piora do crédito e apertam empréstimos com alta de calotes

Bancos veem piora do crédito e apertam empréstimos com alta de calotes

O cenário não está favorável para quem busca ou precisa pagar um empréstimo, e a expectativa é de que não haja melhora em breve. Essa é a avaliação de economistas, analistas e dos próprios bancos privados para o restante de 2026, em um contexto de juros mais altos que o esperado e do elevado comprometimento da renda das famílias brasileiras.

“Eu acho que o ciclo do crédito vai ser desafiador”, afirmou Milton Maluhy, presidente do Itaú Unibanco, maior banco do país, em teleconferência com analistas na quarta-feira (5). “Vivemos hoje um excesso de crédito dado pelo mercado.” O executivo disse que prefere abrir mão de crescimento e participação de mercado a correr o risco de lidar com a inadimplência no futuro.

O Bradesco também sinalizou cautela. “Não estamos fazendo loucura. Estamos reduzindo o crédito pessoal e fazendo colateralizado”, disse o presidente Marcelo Noronha a jornalistas na quinta-feira (6).

Essa postura se reflete nas reservas para perdas com calotes que os três maiores bancos privados do país — Itaú Unibanco, Bradesco e Santander — fizeram no segundo trimestre. Somados, os bancos provisionaram R$ 28,7 bilhões, uma alta de 12,4% em comparação com o mesmo período de 2025. A carteira de crédito subiu 9,4% no período, chegando a R$ 3,37 trilhões.

“É um momento difícil para o setor bancário. A inflação está corroendo a renda das famílias e o juro alto está reduzindo a capacidade de financiamento das empresas”, diz Daniel Utsch, gestor da Nero Capital.

Em maio, a inadimplência geral do sistema financeiro atingiu o pico da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011: 4,74% de todo o crédito estava em atraso há mais de 90 dias. Em junho, após o início do Desenrola 2.0, o indicador caiu para 4,68%, ainda acima da média histórica de 3,29%.

Segundo Flávio Ataliba, pesquisador do FGV IBRE, o percentual reflete a Selic a 14% e a precificação de juros futuros altos, devido à percepção de risco fiscal no Brasil. Quanto mais medo de calote, mais se cobra para emprestar dinheiro, o que encarece o custo do dinheiro. No início do ano, o mercado esperava que a Selic caísse para 12%, mas agora projeta apenas uma redução de 0,25 ponto percentual, para 13,75%.

“Outro ponto de atenção é a inflação dos alimentos, que compromete mais de 23% do orçamento das famílias que ganham até um salário mínimo”, afirma Ataliba.

O endividamento das famílias com os bancos em relação à renda acumulada dos últimos 12 meses chegou a 49,93% em janeiro, o maior valor da série iniciada em 2005. O percentual se manteve próximo disso até maio, último dado disponível.

Apesar do desemprego na mínima, a perspectiva não é de melhora, já que o mercado espera desaceleração da atividade econômica por causa dos juros altos. “A transmissão da Selic na ponta é muito lenta. A tendência é que a inadimplência piore ou, no mínimo, se estabilize no segundo semestre”, diz Ataliba.

Para Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, o fim da guerra no Oriente Médio e um El Niño menos intenso poderiam abrir espaço para mais reduções da Selic. “Mas, para discutirmos juros estruturalmente mais baixos, é inevitável falar sobre o fiscal.” Os bancos afirmam ver um ajuste fiscal no próximo mandato presidencial, independentemente do candidato eleito.

Por enquanto, a cautela se manifesta na restrição de crédito para consumidores de baixa renda e na preferência por empréstimos com garantia, como consignado CLT, financiamento imobiliário e de veículos com colateral e linhas com garantia do governo via FGI e FGO para pequenas e médias empresas.

O Santander teve o pior balanço no segundo trimestre entre os pares, segundo analistas, com lucro abaixo do esperado devido ao maior gasto com provisões. Segundo a XP, a carteira de crédito do banco segue praticamente estagnada. “A normalização do custo do crédito ainda deve levar alguns trimestres”, dizem analistas da corretora.

O Itaú, que tem o menor índice de inadimplência entre os pares (1,9%), também teve deterioração. O banco revisou para baixo a projeção de 2026 para receita com serviços e seguros, de 5% a 9% para 2% a 5%, citando a maior volatilidade no mercado e a menor receita com tarifas de cartões.

O Bradesco ainda enfrenta inadimplência maior. Mesmo elevando o percentual de créditos com garantia de 58,5% para 61% da carteira, os empréstimos ao varejo preocupam, diz o Citi. O custo de crédito dos clientes subiu para 5,9%, ante 5,5% no início do ano. Apesar do cenário, os executivos do Bradesco reafirmaram a previsão de expansão de 8,5% a 10,5% para a carteira de crédito no ano, esperando desaceleração gradual nas concessões após o crescimento de 11,6% no primeiro semestre.

Sobre o autor: contato@sejanoticia.com

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